Enfermeira desabafa nas redes sociais sobre aumento do COVID-19

A enfermeira relata o que chama de pior experiência de vida. Prepare-se para chorar.

Eu tô no estacionamento do hospital que trabalho juntando forças pra dirigir o carro até em casa. Eu não sei como está nos outros lugares mas aqui estamos passando pela pior experiência profissional, no meu caso a pior desde a minha formação, e lá se vão 11 anos.

Eu estava de plantão na época da pacificação, foi muito triste, muita gente baleada, desespero total, mas não se compara ao que vivi hoje, já teve acidente de ônibus onde todos os acidentados foram pro hospital que eu trabalhava, foi triste mas ainda sim não chega ao que senti hoje. Já teve gerador não entrando após falta de luz, correria pra resolver os equipamentos que não tinham backup de bateria, mas nada se compara a vivência de hoje.

Eu tô escrevendo pra externar, pra desabafar. porque hoje desde às 07h até às 19h não paramos de atender pacientes com insuficiência respiratória, a famosa falta de ar, causada pelo COVID 19.

Começou por um homem de 40 anos que foi prontamente intubado, depois outro de 61, outros, outros e outro. Uma tomografia mais assustadora que a outra. Dois pacientes me marcaram, um que vou chamar de X que tem 41 anos, trabalha como motoboy e não conseguia mudar de lado na cama que agonizava, com muita dificuldade me pediu pra antes de intubar e sedar que deixasse escondido fazer uma ligação pra esposa pra não causar pânico quando ela ouvisse da nossa boca que ele havia piorado e a outra foi uma senhora que estava com tanta falta de ar que pediu que a gente a matasse pra acabar com aquele sofrimento. 

Amigos, foi chegando tanta gente que trocar a luva era o máximo que conseguíamos. Decidimos separar um lado da sala para os contaminados e o outro lado para os outros pacientes, mas não somos duas equipes.

Então enquanto estávamos intubando essa paciente que pedia a morte, a outra do outro lado que internou por conta de um AVC sofria uma PCR (parada cardiorrespiratória), consegui trocar o que dava de paramento e correr pra assistir sem ter muito com quem revezar a massagem (quem conhece sabe que é uma manobra cansativa que deve ser revezada de 2/2 minutos), mas ou a gente se esgota ou perderíamos mais uma paciente.

A gente colocou paciente onde não cabia, em macas sem conforto e fomos fazendo o que deu. Metade da equipe não sabe se continua, eu sou uma dessas… não sei se dá pra tolerar isso, é muito sofrimento dos pacientes e muito nosso também. Nós ficamos 12 horas de máscara N95, almoçamos em minutos, esquecemos de beber água.

Já vivemos outros plantões caóticos pontuais mas pro nosso desespero, matematicamente o próximo será pior. E pior que isso é o quê? No início eu disse que foi a pior experiência profissional mas na verdade é a pior experiência de vida.

Josy Silva – Facebook

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