Uma comissão do Senado irá mediar conflito interno entre membros da Universal na Angola

Por Luciana O Garcia

Internautas e políticos questionam o motivo do investimento e interferência do governo em uma situação interna de uma instituição privada que gera um excelente faturamento.

O Nelsinho Trad (PSD-MS) apresentou um requerimento solicitando uma Comissão Temporária Externa composta por quatro membro titulares e quatro membros suplentes, total de oito membros, para realizar uma verificação na Angola a respeito da briga interna da Igreja Universal do Reino de Deus.

O senador diz que um grupo estaria sofrendo perseguição religiosa, com invasões violentas e detenção de membros e requisitou uma aeronave da Força Aérea Brasileira para cumprir o que ele chama de missão diplomática.

Ele argumenta o requerimento com base no Regimento Interno do Senado Federal, em seu Artigo 74º II que diz que: “As comissões temporárias serão: II – externas – destinadas a representar o Senado em congressos, solenidades e outros atos públicos.”

A Frente Parlamentar Evangélica no Congresso tomou partido da briga e emitiu nota pedindo providências das autoridades. O Itamaraty também tenta mediar o conflito. O Ministro Ernesto Araújo pediu atenção das forças de segurança e André Mendonça afirmou que o governo brasileiro tem atuado na questão para garantir a integridade física e o patrimônio dos brasileiros e da instituição na Angola.

O Senado aprovou o requerimento, mas Davi Acolumbre, presidente do Senado, informou que a viagem será feita em ‘momento adequado’, seguindo normas de segurança e sanitárias.

(Leia na Íntegra)

Briga, acusações e muita confusão

A briga tem várias narrativas e para entender o que está acontecendo precisamos unir todos os fios.

Os protestos de bispos e pastores que estão Angola teria começado devido a lavagem de dinheiro. Outra alegação é que a igreja interferiria diretamente em questões pessoais do casamento, inclusive exigindo vasectomia dos pastores, há ainda acusações de racismo e exigência de aborto para as esposas dos pastores.

Outras queixas falam de falsificação da ata de eleição de órgãos sociais da instituição, emissão de procuração que concedem poderes plenos a membros brasileiros, ainda proibição para que as esposas dos pastores tenham formação acadêmica ou técnica. Quem contraria é perseguido, segundo os opositores.

Devido as acusações, o Serviço de Investigação Criminal da Angola realizou busca e apreensões nas igrejas e residências de pastores que estão na Angola.

Luanda e outras províncias como Benguela, Cafunfo, Huambo, Luanda-Norte e Malanje passaram a integrar parte dos 35 templos da igreja que foram assumidos após a ruptura com a central brasileira. Os eventos começaram ano passado, os membros da Angola chegaram a enviar um manifesto para o Brasil, que foi ignorado pelas lideranças. Os dissidentes já estariam somando 362 pastores do total de 464 da IURD. A Igreja Universal do Reino de Deus iniciou a instalação na Angola em 1992.

Com taxa de mortalidade na faixa dos 42 anos, a mais baixa do planeta, e com uma das mais altas taxas de mortalidade infantil, cerca de 60% dos cidadãos recebem em média dois dólares por dia para sobreviver, em contra partida a Universal recolheria no país cerca de 80 milhões de dólares por ano, segundo o bispo Bezerra Luiz. De acordo com o mesmo bispo, o dinheiro da Universal sairia do país por estradas sentindo África do Sul e de lá viriam para o Brasil, além de cada pastor e suas esposas trazem ao Templo de Salomão o equivalente a 15 mil dólares cada um. A igreja tem 500 mil fiéis em Angola.

O presidente, Jair Bolsonaro, também tomou partido na briga

Ele saiu em defesa dos pastores brasileiros que estão na Angola e enviou uma carta ao dirigente angolano João Manuel Lourenço pedindo proteção contra os ataques que eles alegam estar sofrendo.

Íntegra da carta do presidente:

“É sempre com satisfação que me dirijo à Vossa Excelência, cujo Governo tem sido marcado por admiráveis esforços em prol da consolidação da Angola na trajetória do desenvolvimento. Também no Brasil, temos levado adiante uma agenda de reformas econômicas com o propósito de firmar as bases para o crescimento sustentado. Esta crise global que enfrentamos reforça minha convicção quanto ao interesse de nossos países em seguir cultivando colaboração e entendimento cada vez mais estreitos.

Neste espírito, permito-me trazer à atenção de Vossa Excelência nossa preocupação com recentes episódios em Angola de invasões a templos e outras instalações da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Registram-se, ainda, relatos de agressões a membros da IURD, que, em certos casos, teriam sido expulsos de suas residências”.

Julgamos ser preciso evitar que fatos dessa ordem voltem a produzir-se ou sejam caracterizados como consequência de disputas internas. Há perto de 500 pastores da IURD em Angola e, nesse universo, 65 são brasileiros. Os aludidos atos de violência são atribuídos a ex-membros da IURD, que também têm levantado acusações e, com isso, motivado diligências policiais na sede da entidade e nos domicílios de dirigentes seus.

Sabemos de processos de apuração em curso na Justiça angolana, cujas decisões soberanas serão, por óbvio, plenamente acatadas. Meu apelo à Vossa Excelência é para que, sem prejuízo dos trâmites judiciais, com seu tempo próprio, se aumente a proteção dos membros da IURD, a fim de garantir sua integridade física e material e a restituição de propriedades e moradias, enquanto prosseguem as deliberações nas instâncias pertinentes.

Tendo presente o quanto Angola valoriza a liberdade religiosa e a atuação de diferentes denominações, no marco do respeito ao ordenamento angolano, estou seguro de que Vossa Excelência acolherá favoravelmente minhas palavras”.

“Permito-me trazer à atenção de Vossa Excelência nossa preocupação com recentes episódios em Angola de invasões a templos e outras instalações da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Registram-se, ainda, relatos de agressões a membros da IURD, que, em certos casos, teriam sido expulsos de suas residências.”

Versão da Universal

Para a igreja de Edir Macedo a rebelião teria sido causada por ex-pastores que tiveram práticas criminosas (em alguns casos), com desvio de condutas morais e também em desacordos com os princípios exigidos.

Ainda considerou que os ataques teriam sido violentos, movimentos a xenofobia, para ‘tomar a igreja’.

Durante uma live Macedo alegou: “Olhe para os semblantes deles. “São semblantes satânicos, malditos, amaldiçoados. Nunca tinha visto o João Leite com esse semblante. A voz dos dois (João Leite e Alfredo Paulo) é acusatória. Uma voz que diz: ‘Eu vou desgraçar alguém’. Que homens de Deus eram eles? É porque houve uma maldição do pecado. Que Deus tenha compaixão de vocês, João Leite e Alfredo. Vocês já são malditos, estão alijados. São malditos pelo que estão fazendo com as pessoas que estamos resgatando do inferno.” E ameaçou: “Você que está dividido, inseguro, fuja dos rebeldes. Fique longe deles. Tire os seus entes queridos de perto. O que vai acontecer com eles, meus caros, já está determinado. E não há quem possa mudar essa realidade.”

Em nota, a Universal diz que as alegações dos pastores angolanos seriam “mentirosas” para confundir a sociedade local, e disse que a igreja estimula o planejamento familiar, e conclui dizendo:

“Esclarecemos que, respeitada a unidade de doutrina da fé que une a Igreja Universal do Reino de Deus em todos os 127 países onde está presente, nos cinco continentes, a Universal de cada nação dispõe de total autonomia administrativa para encaminhar e resolver suas questões locais, sempre observando as leis e as tradições. O que se espera é que as autoridades restabeleçam, com urgência, a ordem legal e possam assegurar que a Universal continue salvando vidas e prestando ajuda humanitária em Angola, como faz há 28 anos.”

Questionamentos

Internautas questionam a intervenção do governo brasileiro em uma briga interna da Universal que não está esclarecida e a versão dada pela igreja, até o momento, não é sólida.

Por que impostos sejam usados para defender interesses privados da Igreja do Edir Macedo? – Essa é a pergunta feita com frequência quando se trata do tema.

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