Está tudo predeterminado? A ciência busca por respostas

O superdeterminismo dá sentido ao mundo quântico ao sugerir que ele não é tão aleatório quanto parece, mas os críticos dizem que ele mina toda a premissa da ciência. 

Na série Loki da Marvel finalizada na última quarta-feira (14), o Deus da Trapaça descobriu que, o tempo todo ele estava fadado ao fracasso. Havia uma organização chamada AVT dedicada a proteger uma única linha temporal sagrada, garantindo que tudo terminasse sempre do mesmo jeito. Incapaz de aceitar a realidade, Loki decide confrontar as crenças da AVT. “Vocês não param de ficar se gabando sobre como são os árbitros divinos de poder no universo”, e insiste “Minhas escolhas são minhas.”

Esse conflito, entre Loki e os agentes da AVT, foi discutido incansavelmente na Filosofia Clássica. À ideia que o livre-arbítrio é uma ilusão, damos o nome de determinismo.

O problema da liberdade é um dos mais antigos na filosofia. Como saber se somos realmente os autores das nossas escolhas, ou se elas são impostas por mecanismos físicos alheios à nossa vontade? Segundo o filósofo Barão D’Holbach, figura importante do iluminismo francês: “Somos todos engrenagens de uma máquina fazendo o que fomos feitos para fazer sem nenhuma volição.”

A Física de Newton trouxe um grande empecilho ao livre arbítrio: o determinismo. Uma vez estabelecidas as condições iniciais do universo, todas as suas partículas seguiriam comportamentos estabelecidos pelas leis deterministas. O que será que afirma a ciência?

Para alguns físicos, como Niels Bohr e sua equipe, do início para a metade do século XX, a mecânica quântica poderia ser entendida a partir de probabilidades. No entanto outros grupos de cientistas nunca estiveram satisfeitos com esse método, e novas teorias para explicar com mais exatidão todo esse complexo surgiram ao longo do tempo. Quase um século depois, um crescente número de físicos ainda questiona as teorias de Bohr e seus aprendizes.

Uma alternativa conhecida como mecânica Bohmian, cujo nome vem do seu originador David Bohm dos anos 50, argumenta que as probabilidades envolvidas nos experimentos quânticos simplesmente descrevem nosso limitado conhecimento de um sistema – na realidade, uma equação com variáveis atualmente ocultas aos físicos guia o sistema independentemente de alguém fazer uma medida.

A física teórica Sabine Hossenfelder do Instituto de Estudos Avançados de Frankfurt, na Alemanha, explica que tudo no universo, incluindo nós e nossos cérebros, é feito de partículas elementares. O que essas partículas fazem é descrito pelas leis básicas da física. Tudo o mais, em princípio, deriva disso.

Eu nunca trabalhei em algo tão impopular!” disse Hossenfelder. Ela culpa a falta de uma discussão racional e aberta sobre o livre arbítrio para a maioria dos problemas científicos, incluindo a gravidade quântica.

Sabine Hossenfelder também diz estar convencida de que não estamos fazendo nenhum progresso na física quântica porque os físicos são incapazes de abandonar sua crença no livre arbítrio. E desde os fundamentos da mecânica quântica esse freio tem repercussões até a neurociência e a política.

A ideia que Hossenfelder está trabalhando tem a ver com o maior mistério da teoria quântica, a saber, o que acontece quando o reino quântico indefinido e indeciso é destilado em algo definido, algo que experimentaríamos como real. Hossenfelder diz que a existência de livre arbítrio é incompatível com nosso conhecimento atual da natureza. E por que o medo de que sua ausência abra a porta para a irresponsabilidade moral das pessoas é infundado, e é baseado em uma série de erros conceituais. Esses medos surgem de um mal-entendido sobre o que significa não ter livre arbítrio.

Albert Eintein não tinha dúvidas: “Deus não joga dados com o universo”. Sabine Hossenfelder está inclinada a concordar. Agora, ela e um grupo de físicos estão gerando controvérsia ao tentar reviver uma ideia não aleatória e “determinística” em que os efeitos sempre têm uma causa. A estranheza da mecânica quântica, dizem eles, só surge porque os cientistas tem trabalhado com uma visão limitada do mundo quântico.

Hossenfelder explica sobre ausência de livre arbítrio:
a) Se suas decisões futuras são determinadas pelo passado, você não tem livre arbítrio.
b) Se suas decisões futuras forem aleatórias, significa que nada pode afetá-las e, portanto, você não tem livre arbítrio.
c) Se suas decisões são qualquer combinação de a) e b), você não tem livre arbítrio.

O superdeterminismo, como essa ideia é conhecida, faria sentido não apenas para a teoria quântica um século depois de ter sido concebida. Também pode fornecer a chave para unir a teoria quântica com a relatividade para criar a teoria final do universo. Entretanto, muitos teóricos estão convencidos de que o superdeterminismo é a ideia mais “perigosa” da física. Leve suas implicações a sério, eles argumentam, e você minará todo o edifício da ciência.

Então, qual é a resposta? O superdeterminismo merece sua má reputação ou, na ausência de uma solução melhor, temos pouca escolha a não ser dar a ele uma chance? 

Algumas teorias científicas realmente incluem a especulativa “interpretação de muitos mundos”, de uma ideia de que todo resultado experimental pode e acontece enquanto partículas colapsam infinitamente em todos os estados possíveis, desovando um número infinito de universos paralelos.

Embora não haja evidência de que realmente esses supostos universos paralelos existam, o famoso físico Stephen Hawking trabalhou a ideia com um colega de ramo, o teórico Thomas Hertog, da Universidade de Leuven, para encontrar evidências desses universos paralelos. Chegaram a publicar um artigo que parece ficção científica, mas não é. 

As leis locais da física e da química podem ser diferentes de um universo de bolso para o outro, que juntos formam um multiverso. Mas eu nunca fui fã do multiverso. Se a escala de universos diferentes no multiverso for grande ou infinita, a teoria não pode ser testada”, escreveu Hawking.

Não só na física quântica mas também na Neurociência, o livre arbítrio parece não se sustentar. Nos anos 60, dois neurocientistas alemães, Hans Helmut Kornhuber e Lüder Deecke, descobriram o que eles chamaram de bereitschaftspotential, que quer dizer “potencial de prontidão”. Esse é o nome que eles deram pra dizer que o livre arbítrio não só é relativo como muito provavelmente é falso, e que nossas escolhas são fruto da nossa inconsciência. Uma ideia incômoda, mas que não significa que é necessariamente ruim.

O neurocientista americano Sam Harris escreveu em seu livro Free will (Livre Arbítrio) “Reconhecer que minha mente consciente nem sempre vai originar meus pensamentos, intenções e ações não muda o fato que pensamentos, intenções e ações de todos os tipos são necessários para uma vida feliz”.

Em 2008, em um estudo publicado na Nature com o título Determinantes Inconscientes de Decisões Livres no Cérebro Humano, ficou provado que a decisão começa a ser formada no cérebro até 10 segundos antes dele tomar consciência disso. Você se prepara inconscientemente pra fazer algo bem antes de sequer se dar conta que está fazendo isso – e bem antes de realizar o movimento de fato.




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