Elize Matsunaga: influências midiáticas, poder aquisitivo e machismo estrutural no julgamento

A repercussão do caso Matsunaga seria o mesmo se Elize quem tivesse sido assassinada? O envolvimento parcial de promotores influenciou no julgamento? Por que a mídia deu tanta notoriedade ao assassinato de Marcos sendo que inúmeros casos como esse acontecem no país? Até onde o poder aquisitivo normatiza as notícias?

Elize Araújo Kitano Matsunaga, hoje com quarenta anos, nascida em Chopinzinho, interior do Paraná, condenada pelo assassinato do marido, Marcos Matsunaga, executivo da Yoki, cumpre sua pena na penitenciária de Tremembé desde 2012 e está presa em regime semiaberto, ela costuma deixar a prisão somente em saídas esporádicas.

Vítima de estupro na adolescência, Elize foi lembrada como uma boa aluna, sem históricos negativos de comportamento. Aos dezoito anos foi atrás de melhorias de vida em Curitiba, onde concluiu um curso técnico de enfermagem e começou a trabalhar em um hospital local.

Ainda em busca de melhorias, a jovem Elize parte para São Paulo em busca de avanços na carreiras e continuidade dos estudos, na capital passou a trabalhar secretamente como garota de programa através do site Escorts Vogue, um site de elite que exibe garotas de luxo procuradas por milionários. Através do site, Marcos Matsunaga encontra Elize em 2004, ele era casado na época e tinha uma filha pequena.

Elize tinha uma vida estável na capital, custeava moradia, despesas e ainda estudava. Ela e Marcos se apaixonam em, ele pede para que ela deixe os programas para assumi-la, ela relutou durante um tempo, mas aceitou a condição de Marcos, ele a presenteia com um carro Pajero, pensão fixa e presentes caros. 

Apaixonados e para surpresa de todos, conforme relata a família de Marcos, eles se casam em 2009. O reverendo René Henrique Gotz Licht, conselheiro de casamento do casal, afirma que no princípio eles viviam apaixonados, um bom relacionamentos, companheirismo, vida de luxo, viagens, parceria, caça, estande de tiros; a jovem foi introduzida no universo do milionário e era participativa nos hobbies. O casal obteve o Certificado de Registro do Exército Brasileiro CAC para colecionar e caçar com armas. Ela seguiu na universidade, se formando bacharel em direito anos mais tarde.

Apesar de amigos de Marcos afirmarem que ele era passivo e não demonstrar atitudes agressivas, amigos da faculdade contam que Marcos era possessivo, ciumento e controlador, ligava com constância para Elize, pedia para que os amigos ficassem em silêncio quando ele ligasse para que não escutasse vozes de homens, costumava pedir para ela passar o telefone para pessoas para confirmar se ela realmente estava ali.

O excesso de ciúmes do executivo demonstrava muito sobre seu caráter, Elize demitiu uma secretária após suspeitar de um caso entre ela e o marido, além de encontrar mensagens de Marcos com outra mulher.

As coisas começam mudar quando decidem ter um filho, o casal encontram dificuldades na fertilidade e passam por inúmeros tratamentos, nessa etapa as brigas se tornam frequentes, Elize deseja se separar, reclamava da falta de relacionamento entre os dois e da falta de empatia do marido, mas quando começa dar andamento na decisão descobre a gravidez, em 2010, e volta atrás. Segundo a própria relata, o desejo de ter uma família unida a faz ignorar os feitos anteriores e querer viver bem com o marido.

Nessa etapa do casamento, Marcos já traía Elize com prostitutas, rompendo o acordo preliminar que fizeram anteriormente, onde ela deixaria a prostiuição e ele abandonaria sua compulsão por prostitutas. O reverendo René Licht confessou judicialmente a constância de brigas do casal e confessou ter sugerido a Marcos a internação de Elize pela desconfiança que ela desenvolveu com o marido, as empregadas do casal também confirmaram a frequência de brigas.

Marcos passou a torturar Elize psicologicamente, ela era frequentemente ameaçada de ser internada e perder a guarda da filha, além de ser xingada e ofendida pelo seu passado. O marido a xingava de prostituta, que ela só servia para abrir as pernas e era uma puta de quinta categoria, além de afirmar que havia a tirado do lixo e que jamais deixaria a filha dele ser criada num ambiente como ela foi criada. 

O executivo passa a ameaçar Elize de tirar a guarda da filha, privando o contato das duas. A família de Marcos que finge estar do lado de Elize em nada a ampara nessa questão. A influência de poder é clara e categórica nas chances que Marcos tinha não somente em tirar a guarda da mãe, mas como interná-la compulsoriamente. As chances de Elize eram irrisórias contra Marcos, se observado a influência e poder aquisitivo dos dois.

Elize desconfiava das traições, mas não imaginava que Marcos estava apaixonado pela prostituta Natália Vila Real Lima, na época com vinte e três anos. Ela contrata um detetive particular, William Coelho, para investigar as traições do marido e obter provas da sua tese contra a acusação de “loucura”.

Em um e-mail, Marcos chega a confessar as traições: “(…) agora me sinto como nessa música, temos muitas coisas para acertar e corrigir na nossa relação, cometi muitos erros e fui muito fraco (…) Temos que esquecer o que passou, parar de nos magoarmos e recomeçar tudo como se voltássemos para aqueles dias mágicos (…)”.

Coelho, a partir de e-mails de Marcos com uma prostituta, passa a investigar a rotina do executivo, ex-amigas de Elize confirmaram que ele ainda contratava garotas de programa. O detetive passa a enviar para Elize as fotografias de Marcos com a amante, Elize, abalada com a situação, viaja para a cidade natal e nesse tempo segue recebendo informações de Coelho, incluindo fotos de Marcos e a prostituta no restaurante Alucci Alucci, apresentado e frequentado pela esposa, junto com ele. 

Elize volta para São Paulo no dia dezenove de maio, noite do crime. Na noite anterior, Marcos estava com Nathália. Ele busca a esposa e a filha no aeroporto, junto com a babá, a babá vai embora e Marcos aparece no elevador indo buscar uma pizza. Elize relata que o casal teve uma grande briga naquela noite.

Visto que ela estava sendo bombardeada com as comprovações da traição do marido, fica claro o descontentamento e alteração emocional, Marcos por sua vez por passar sempre uma imagem de bom moço, conservador, tímido, introvertido, persona que apresentava a sociedade, se enfurece ao ser contestado e encurralado com provas obtidas através de forma profissional, o que abre grandes possibilidades para as reações que Elize alega de agressão verbal e física. 

Ao apanhar de Marcos, Elize busca defesa em um buffet da sala, um dos inúmeros lugares em que o casal mantinha armas. Ela pega uma pistola nacional .380, simplória em relação ao acervo de trinta e três armas que colecionavam, incluindo submetralhadoras e outras que os policiais só viram em filmes, avaliadas em R$ 267 mil. Segundo consta no relato, no momento entre defesa e desespero ela caminha para o quarto para deixar a arma em outro local, nesse momento Marcos vai atrás dela e a discussão continua, ele caminha na direção dela, ela levanta a pistola e atira na cabeça do marido.

Marcos morre. Durante a madrugada, Elize se desespera com o corpo no mesmo ambiente da filha e o arrasta para um cômodo, onde o esquarteja, coloca as partes do corpo em malas e sai para desovar o corpo, ela segue no sentido do Paraná, mas retorna a São Paulo por onde vaga para encontrar um local apropriado. Vale ressaltar que entre a ida da Vila Leopoldina, na Zona Oeste de São Paulo, até Chopinzinho, Paraná, ela poderia ter desovado o corpo em uma das diversas represas da região, para não levantar suspeitas. Mas ao ser presa preventivamente confessou o crime.

A prostituta que era amante de Marcos tentou mudar a versão do depoimento e alegar que não era prostituta, mas modelo, e pediu uma parte da herança de Marcos por alegar ter tido um relacionamento duradouro com ele, quem defende a tese é o advogado Roberto Parentoni que defende Marcola. 

Elize atende o telefone na região do crime, faz contato com parentes e amigos no momento de desespero, ações que mostram o nível de perturbação mental que uma bacharel de direito estava.

Marcos estava em uma negociação bilionária da empresa, se premeditado Elize poderia ter contratado um assassino de aluguel e fazer uma viagem para o exterior, por exemplo, ou ainda ter assassinado Marcos durante as viagens de caça, que poderia constar facilmente como acidente fatal não premeditado. As características do crime, se observado do ponto de vista das reações emocionais, revelam um teor passional, um ato cometido no calor de diversas emoções e descontrole psíquico, natural para o tipo de situação em que estavam submetidos naquele momento.

Ela vê o marido repetir o modelo de conquista com outra prostituta, tem sua sanidade ameaçada, bem como sua liberdade, se um rompimento ocorre devido ao novo relacionamento de Marcos as ameaças de internação e privação de contato com a filha podem ser concretizados. Elize demonstra lutar pela família, visto que tinha todos recursos na mão para processá-lo e pleitear a guarda da filha, amparada pelas legislações vigentes que ela conhecia profundamente, como bacharel em direito.

A mídia teve sua contribuição na propagação e grande influência sobre o julgamento de Elize, visto que hoje temos conhecimentos de programações pagas para divulgar e fazer ser notícia determinados assuntos, como por exemplo reality show, algo que não pode ser afirmado mas deve ser amplamente refletido e questionado. Elize foi pintada como uma grande e temida assassina num crime que ocorre com frequência, principalmente praticados contra mulheres, em 2020, por exemplo, foram registradas 43.892 mortes violentas. Se Elize tivesse sido assassinada e esquartejada pelo executivo Marcos Matsunahga, o crime teria a mesma repercussão? 

Marcos, após a repercussão e exposição do caso, mostrou ser uma pessoa vulnerável, manipuladora através do seu poder aquisitivo, ao mesmo tempo uma pessoa insegura, incapaz de grandes conquistas amorosas por essa razão recorria a prostituição onde o que vale de fato para a posse é o poder de compra e não necessariamente a capacidade de provocar interesse, conquista, estímulos emocionais. A compulsão por prostitutas revela um homem inseguro de si mesmo, vulnerável, que se apaixonava fácil por aquilo que conseguia obter, além da sua fraqueza evidente em reproduzir o modelo que aprendeu com a esposa de lugares a se frequentar, objetos a se presentear, abordagem para conseguir fidelizar um relacionamento através da única coisa que ele podia oferecer com segurança: dinheiro e lamentações de um casamento infeliz, com o qual ele não conseguia lidar com seus deveres, provavelmente repetindo os erros no futuro ao buscar novas aventuras.

O julgamento de Elize, ainda em 2012, mostrou uma série de atitudes machistas enraizadas culturalmente e reproduzidas no meio jurídico, o promotor do caso que deveria ter imparcialidade de análise se revela unilateral, parcial e envolvido com uma parte da história, a do milionário. Os depoimentos são seguidos de rebaixamentos de estatuto, profissão, passado, e referência da condição financeira de Marcos. Um dos legistas da defesa aponta o quão questionável é o laudo que o legista do caso reproduziu, tanto que aos advogados de Elize, Roselle Soglio e Luciano Santoro, fizeram diversos questionamentos pontuais, como o questionamento ao delegado sobre a preservação do local do crime, que não ocorreu.

Após a divulgação de quem Marcos de fato era, a família Matsunaga pede um DNA da filha do casal, que foi comprovado ser filha do executivo e herdeira. Na época do crime a pequena tinha um ano e sete meses, atualmente está com dez anos, a família de Marcos pediu a guarda unilateral da menina, proíbe contato com a mãe e ainda tenta judicialmente remover o nome de Elize da certidão de nascimento.

A garotinha teve conhecimento do crime quando tinha sete anos, na escola em que estudava. Ela foi trocada de escola e matriculada com outro nome pela família do empresário.

Os advogados dos Matsunaga deixaram claro o interesse de privar o contato entre mãe e filha. Elize nunca recebeu uma fotografia da filha, nem imagina como ela seja atualmente, nunca pode ter uma visitação, pois a justiça atendeu o pedido dos avós paternos de privar o contato, as cartas que Elize escreve para filha nunca tiveram respostas, não se sabe se ao menos ela recebe, a realidade mostra que não.

O contato entre mãe e filha é fundamental não somente para reintegração social de Elize, que praticou o assassinato com medo de perder a filha, mas como para a menina, segundo comprovações qualitativas científicas psicológicas, como Klein, Spitz, Freud, Piaget e outros. A falta materna provoca uma série de traumas na criança, como a sensação de abandono que influenciará toda a sua vida adulta. 


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